5 dicas para começar a ler (e aprender) Poesia.

Quem me acompanha no Instagram sabe que comecei minha iniciação científica em poesia portuguesa moderna e contemporânea neste semestre. Assisto aulas que são ministradas pela minha orientadora no mestrado e doutorado e tenho aprendido muito nesses encontros semanais. Acho que estou no melhor momento da minha graduação, pois  é uma fase de grandes descobertas e, apesar da enorme carga de leitura teórica, conhecer poesia está me tornando uma leitora mais atenta e criteriosa.

Por causa dos meus posts diários sob a hashtag #umpoemapordia no IG, muitos estão tendo acesso ao meu exercício diário, que aprendi com uma colega de classe muito querida (muito obrigada por tudo, Carol). A técnica consiste em ler ao menos um poema todos os dias para ajudar na assimilação da linguagem poética. Por causa desses posts a minha caixinha de mensagens está lotada com perguntas e apontamentos sobre poesia. A maioria das pessoas acha bonito mas não lê porque pensa que não entende, e encara poesia como algo difícil e restrito às rodinhas de intelectuais. Isso é uma grande bobagem! A poesia é de todos e para todos, e está em tudo, ao alcance de qualquer pessoa. Precisamos acabar com esses mitos e incluir mais pessoas nessa verdadeira forma de expressão da alma.

Eu não sou especialista (ainda) e entendo muito pouco (ainda), mas vou compartilhar aqui algumas dicas que podem ajudar bastante a quem tem vontade de começar a ler poesia mas tem “medo”, acha difícil e pensa que não é capaz de compreender. Portante, nenhuma dessas dicas é embasada cientificamente, estou apenas compartilhando a minha experiência, ok? Vamos lá!

1- Leia poesia todos os dias

Sim, é importante para treinar o cérebro a acostumar com a linguagem poética. Nós nos acostumamos com a prosa, e ler poesia é sair um pouco da zona de conforto. Muitos poemas são construídos por metáforas, que são mais facilmente identificadas quando estamos acostumados a elas. Ler todos os dias é treinar seu cérebro, e isso ajuda a mudar a nossa percepção sobre os poemas.

2- Dedique-se a um poema por vez

Pegue um poema, qualquer um, de preferência curtinho, e reflita sobre ele. Leia pela manhã, ao acordar, e “rumine” esse poema até quase decorá-lo (se decorar, melhor, mas não leia com essa intenção pois pode tirar o foco, que é apreender o significado e não  a forma). Depois de eleger um poema pra chamar de seu, fique uns dois ou três dias sem pensar nele, leia outros poemas e depois retorne a ele. Anote o que você encontrou de diferente que não tinha percebido antes.   Você verá que um mesmo poema pode significar muitas coisas diferentes, dependendo da situação pela qual você esteja passando.

3- Comece por autores conhecidos

Fernando Pessoa, Drummond, Cecília Meirelles, Manuel Bandeira, são muitos poetas consagrados que podem auxiliá-lo nessa nova estrada. Comece pelos famosos e depois aventure-se por outros caminhos. Tente conhecer um grande poeta de cada país, leia um curto resumo de sua biografia para entender o momento em que seus versos foram escritos. Você notará que muitos versos viraram músicas conhecidas do grande público. É surpreendente descobrir aonde a poesia é capaz de viajar!

4- Leia o poema em voz alta

Você vai sentir e compreender o poema pela entonação, e terá percepções diversas daquelas que você sentiu na primeira leitura silenciosa. Não tenha vergonha! Leia em voz alta e escute a sua própria voz, escute o que você sente ao ler um poema.

5- Escute declamações

Muitos poetas deixaram material audiovisual das leituras de seus próprios versos que são facilmente encontrados através de mecanismos de busca online. Não é fundamental para entender o poema, mas é uma experiência ímpar ouvir o poema de quem o escreveu e escutar a sua interpretação. Procure no Youtube, lá tem bastante material sobre isso.

E aí? Gostou das dicas? Responda nos comentários se esse post foi útil e, caso ponha as dicas em práticas, me diga se funcionou.

Beijão, e até breve!

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Resenha do livro A Bagaceira, José Américo de Almeida.

Oi, pessoal! Tudo bem?

Hoje trago pra vocês uma indicação de livro  que tem uma história forte, triste, densa, sendo uma obra muito importante para a literatura nacional, porque abriu caminho para  Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, dentre outros.

Detalhes:

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  • Capa comum: 280 páginas
  • Editora: José Olympio (21 de janeiro de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-13: 978-8503012997
  • Dimensões do produto: 22,6 x 15 x 2 cm
  • Peso do produto: 522

Valentim é um retirante da seca que sai da fazenda onde trabalhava com sua filha Soledade e seu filho adotivo Pirunga, e os três acabam pedindo emprego na fazenda Marzagão, de propriedade de Dagoberto, um  senhor de engenho viúvo que tem um filho estudante de Direito, Lúcio, que, no começo da história, está passando férias com seu pai na fazenda. Logo Lúcio e Soledade começam uma relação de amizade onde ambos tem interesses mais profundos, mas nenhum dos dois consegue tomar a iniciativa e falar de forma clara sobre seus sentimentos e anseios, o que dificulta muito o desenvolvimento da relação.

Soledade é retratada como a menina-mulher que chama a atenção dos homens por sua beleza e usa disso para brincar com todos (e esse foi um ponto que me incomodou bastante, mas dentro do contexto social da época é perfeitamente compreensível que existisse essa visão da mulher fatal e irresistível que levava os homens a cometerem loucuras por seu amor). Lúcio é o clichè do bom moço do sertão que sai da fazenda para estudar e retorna nas férias para aprender a lidar com os negócios do pai.

Assim começa um verdadeiro vai – não vai entre Soledade e Lúcio, que não chegam a consumar o seu amor porque o rapaz tem medo de desonrar a moça e não ser capaz de assumir o romance, o que deixa Soledade bastante ansiosa e impaciente, pois ela quer ter um relacionamento estável. Assim, Lúcio volta para a cidade e  deixa Soledade ainda mais angustiada.

Acontece que boatos sobre Soledade fazem com que Valentim desconfie de que alguém está seduzindo sua filha e, ao confrontá-la, ela acaba por acusar uma pessoa da fazenda que se torna vítima de Valentim. Este vai preso e pede a Pirunga que tome conta de sua filha. Lúcio, que tinha voltado para a faculdade, retorna para a fazenda e anuncia ao pai sua paixão pela moça, mas é surpreendido por revelações que o farão desistir de seu amor.

Pirunga descobre quem é o verdadeiro autor da desonra de Soledade e, num ato de vingança por ciúmes, o mata, e também atenta contra a integridade física de sua irmã de criação.

Os anos passam e Lúcio retorna para a fazenda, casa-se, tem seus filhos e um final emocionante traz um desfecho impactante para o leitor.

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Minhas impressões

É um livro difícil, com um ar teatral no qual o autor não usa de muitas descrições, parece que as personagens tomam vida própria e estão ali “vivendo suas vidas”, e  o autor está apenas contando fragmentos de uma história que não tem motivo para ser profunda, visto que é a mesma que se repete em ciclos no interior de muitas outras fazendas do sertão nordestino.

O estudante comparou a mentalidade do engenho, resíduos da escravaria, os estigmas da senzala, esses costumes estragados com a pureza do sertão.

E sentia que, com o andar do tempo, se estupidificava nesse meio execrável.

Enquanto o narrador em terceira pessoa usa uma linguagem rebuscada,  a fala das personagens enche o livro de regionalismo que requerem um glossário para auxiliar na compreensão do texto, que acompanha a obra ao final do livro.

– Eu estava canso de avisar. mas o freguês tinha nó pelas costas, era cheio de noves fora. Aí, dei de garra do quiri. O bruto entesou. Aguento a primeira pilorada – lepo! – no alto da sinagoga.  Arrochei-lhe outra chumbergada. aí, ele negou o corpo, apragatou-se, ficou uma moqueca. E veio feito em riba de mim. Arta! danado! Caiu ciscando, ficou celé!… Foi pancada de morte e paixão. Vá comer, terra!… Fugiu na sombra e levou um tempão amocambado.

A escrita também está impregnada de lirismo, que pode confundir um pouco o leitor, mas é tão poética e bela que vale o esforço:

Não! a mulher que ama é a que diz menos, porque é a que mente mais.

Só a mulher que sofre diz tudo num grito de dor.

A minha maior dificuldade foi conseguir deduzir o que o narrador estava contando porque a escrita se desenvolve de forma a não deixar claro os acontecimentos, e o leitor só descobre o que de fato aconteceu no capítulo seguinte, quando dá-se o resultado da cena anterior. Isso é uma característica da escrita do autor, que pode cansar um pouco, mas os fatos podem ser deduzíveis, então a leitura flui através das cenas entrecortadas.

Eu gostei bastante, para mim foi uma experiência de leitura diferente, muito interessante, e senti empatia com muitos personagens, conseguindo me colocar no lugar de cada um e entender o rumo da história, que é perfeitamente possível, dando um traço de realidade.

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Fica aí a minha dica fortíssima de livro nacional, que não é muito conhecido, de um autor um pouco esquecido, mas que merece toda a nossa atenção e carinho.

Um beijão em todo mundo, até a próxima!

Homens de Vilarinho

Foi um grande acontecimento em Vilarinho, quando na Senhora da Agonia, à missa, o padre João leu os nomes dos mordomos da próxima festa. É que, à cabeça do rol, vinha o Firmo, e todos esperavam tudo menos isso.
– O Firmo?! – não se conteve, no silêncio da igreja, o Antônio Puga.
– Psiu!… – sibilou, dos lados da pia benta, o sacristão, que andava às esmolas.
E o caso só à saída foi comentado como merecia.
– O Firmo?! Mas então o Firmo, daqui a um ano… – e o Puga nem era capaz de levar o raciocínio ao fim.
– Fica. Desta vez fica… – garantiu a Margarida, que bebia do fino. – O padre João tantas lhe disse…
A assistência ouvia maravilhada. O Firmo de pedra e cal em Vilarinho! O mundo sempre dá muita volta!
A notícia tinha realmente que se lhe dissesse. Há muito anos já que o Firmo desorientava Vilarinho. Desde que viera de Amarante da artilharia, e embarcara, nunca mais a seu respeito se soube a quantas se andava. Nem a própria mulher. Quando lhe perguntavam pelo homem, o que fazia, se voltava, se gozava saúde, respondia, já resignada:
– O meu Firmo?! Eu sei lá do meu Firmo no Brasil, na América, na Argentina, os que o conheciam estavam na mesma. Sempre a variar de terra, sempre a mudar de emprego, e às duas por três a oferecer os préstimos para Portugal.
– Oh! oh! – São meia dúzia de dias. Daqui a nada estou cá. É só o tempo de o navio chegar, esperar que eu faça um filho à patroa, e levantar ferro…
Dito e feito. Daí a pouco regressava com a mesma cara. De tal maneira, que já todos se riam. Dera em droga, não havia que ver. Só mesmo o padre João, cabeçudo, é que podia ter ainda fé naquele valdevinos, e continuar junto dele o sermão deixado a meio da última vez. O padre era o pároco de Vilarinho. E sempre que Firmo vinha à terra e acordava da primeira noite dormida com a mulher, lá estava ele à entrada da porta com a sua batina rota e o seu cachaço de cavador.
– Dás licença, Firmo?
– Faça favor de entrar, senhor padre João. – Então tu não terás mais juízo, homem de Deus! Tu não verás que tens aqui um rebanho de filhos?!
Firmo baixava a cabeça diante daquela voz amiga e repreensiva. Nem se defendia. Aceitava cada censura como o golpe dum látego purificador. Mas passados dias, quando a Silvana começava a pedir azeitonas às vizinhas, ia dizendo: _ És tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo…
– Ah! Firmo, que sorte a minha! Valia de bem o gemido da infeliz! Quanto mais chorava, mais ele se enfrenisava na partida. Empenhava uma terra, vendia-lhe o cordão se preciso fosse, recorria em último caso ao próprio padre João, mas abalava.
– Grandes terras, ti Guilhermino!
– Não há dúvida, Firmo… Não há dúvida… Os lucros que tens tirado delas é que são fracos… – respondia melancolicamente o velho, quando o Firmo, a caminho do comboio, enchia a boca com a Califórnia.
– Não tem calhado… Que ele também para que é que o dinheiro presta?!
– Homessa! – É o que lhe digo. Desde que uma pessoa coma e beba…
– E a mulher e os filhos?
– A mulher e os filhos cá vão vivendo… E Vilarinho desanimava.
– Coisa assim, como ele se pôs! E ainda se fosse de gente doutra condição, vá lá com mil demónios! Agora quem lhe conheceu o pai, como eu, um homem sério, zelador do que lhe pertencia, amigo da família, sempre agarrado à enxada… Que ele não é mau. Mas fazer-se um tragamundos daquela maneira! – gemia o abade, quando a Silvana lhe ia pagar a côngrua. – Acredita que tenho uma paixão, que nem fazes ideia!
O padre era a própria seiva de Vilarinho. Tão agarrado à terra que costumava dizer aos colegas:
– Eu, fora cá da minha freguesia, nem latim sei.
Os outros riam-se e davam-lhe palmadinhas intencionais no costado largo.
– Ora, ora, padre João! Esquece-se do latim, esqueceu mas lembra-se do português. Que o diga quem pode…
Aludiam risonhamente à conversa que tivera na Vila com o novo bispo, quando foi chamado à pedra. O prelado, muito severo, com ar de quem ia salvar o mundo, depois de lhe estender o anel e de lhe indicar uma cadeira, pôs-se para ali a alanzoar. Que o incomodara para tratar com ele dum caso grave de consciência e de disciplina. Que sabia que Sua Reverência vivia amancebado e tinha prole. Que tomara conta da diocese há pouco tempo e que não desejava iniciar a pastoreação com actos de violência. Mas que, por outro lado, não podia consentir desmandos a nenhum membro do reverendíssimo clero. Por conseguinte, ou abandonava Sua Reverência o concubinato ou se via obrigado a aplicar-lhe os castigos disciplinares.
O réu não esteve com meias medidas. – Olhe!, senhor Bispo, cá por cima são estes usos. Padre sim, padre não, faz o mesmo. Tenha a certeza. O que são é mais finos do que eu. As fêmeas chamam-lhes criadas; e aos filhos, afilhados, Ora eu cá sou pão pão, queijo queijo. Não nego. Para quê? A mulher é minha, nunca foi doutro, gosto dela e não a largo; os filhos tenho já cinco, quero criá-los e ver se lhes deixo alguma coisa. De maneira que faça o senhor Bispo o que entender.
A resposta ficou célebre. E os colegas, sempre que vinha a propósito, davam-lhe o beliscão.
Ria-se com o seu riso aberto. E, acabada a missa cantada, o oficio ou lá o que era, trepava para o lombo da mula, cheio de saudades das suas leiras e das almas irmãs que governava.
Destas, só uma lhe fazia cabelos brancos: o Firmo. O diabo saíra ave de arribação. E para quem como ele mergulhava as raízes no chão de Vilarinho, uma realidade assim era um sofrimento.
– Homem, mas tu, afinal, quando te resolves a ser um pai de família e a ter vergonha na cara? – acabou por perguntar ao Firmo, já sem mais paciência.
– Há-de ser um dia. Prometo-lhe que há-de ser um dia!
E quando pela sexta vez o padre o acordou do sono com a mulher, na véspera da Senhora da Agonia, o Firmo sossegou-lhe o coração.
– É desta feita. Na Quaresma conte com mais um pecador para a desobriga. Agora tem-me o resto da vida, caseiro como uma galinha…
Padre João sentiu que um grande peso lhe saía dos ombros. Até que enfim!
– Dás-me a tua palavra?
– Estou-lhe a falar a sério, pode crer! Hei-de fazer tudo para isso. já iam sendo horas…
A promessa tinha uma solidez de testamento. Contudo, pelo sim, pelo não, no dia seguinte, à missa, o padre resolveu amarrar o valdevinos à argola, pondo-o, com grande espanto de Vilarinho, no principio da lista dos mordomos da festa do ano que vinha.
– Será que ele desta vez fica mesmo? – insistia o Puga na venda do Trauliteiro.
– Parece que sim. O padre João lá o convenceu…
– Custa-me a acreditar.
– Não tem que ver: está ou não está mudado? Cava ou não cava o dia inteiro, como nós ?
– Realmente… E até os mais renitentes foram cedendo terreno. A própria mulher, que nos primeiros dias andava abismada com aquela resolução, enchia agora os olhos de paz ao vê-lo a tratar do estrume para as próximas sementeiras, e de tempos a tempos a lembrar que era preciso não esquecer de tirar a esmola para a festa, e que a respeito de arraial a coisa havia de ser falada.
O padre, esse, andava de coração em aleluia. A terra de lameiro de que era feito, grossa, funda, quente, só compreendia as pessoas plantadas ali. Por isso, desde que Firmo parecia aclimatado a Vilarinho, até a vida lhe sabia melhor.
– Com que então desta vez sempre ficas por cá?! – foi perguntando o Puga, pela mansa, quando encontrou o Firmo a jeito.
– É como dizes. O bom filho à casa torna… E Vilarinho assentou de vez que o réprobo, afinal, ganhara juízo, tomara nas mãos macias as rédeas duras da casa e dera ao demo o que é do demo – o mundo.
Nos Reis, para aumentar a receita destinada à romaria, fez-se um peditório. E o Firmo, que tocava violão, puxou ali pelas seis cordas corno um valente.
– Ora vê lá tu se não e melhor a vida que agora levas do que andar como um maltês por lá! – dizia-lhe o padre João, como a varrer-lhe do pensamento qualquer resto de maluquice.
– Na verdade…
– Não há que ver: onde encontras tu terras como esta? Bom pão, bom vinho, bons ares, e em nossa casa, ao pé da mulher e dos filhos!
O mundo dera a Firmo luzes para além das fragas nativas. Por isso tinha olhos para ver o padre em plena grandeza. Um castanheiro. Tal e qual um castanheiro, redondo, maciço, frondoso. De tal modo fincado onde nascera, que não havia forças que o fizessem mudar. Só a morte. Ele, Firmo, filho de cavadores, cavador até aos vinte, que se casara, que não tinha estudos, – sem nenhum apego à terra, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras; e aquele homem letrado, que recebera ordens, que prometera dar-se todo a quem proclamara que o seu reino não era deste mundo, – ali com mulher e filhos, cheio do amor deles, agarrado às verças como os juncos às nascentes! As razões que apresentava eram sempre as mesmas. Tantas vezes as ouvira que já nem lhes ligava sentido. Mas agora as palavras de ontem, de antes de ontem, de há vinte anos, embora igualmente incapazes de o vencer – pois sabia que não o movera nenhum dos argumentos invocados -, entravam-lhe pelos ouvidos dentro com outra significação. Mandavam-no curvar-se de pura admiração diante de uma vida sem fendas, inteira como um rochedo. Que bicho! Nem o próprio bispo pudera com ele. Metera a viola no saco e deixara correr. O bloco de pedra talvez estivesse errado em sítios onde já não tivesse valor o tamanho do natural. Em Vilarinho, metia respeito.
– É assim. Eu vou à Vila, ando por lá a dar as voltas precisas, e às duas por três tenho fome. Entro na Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. Há lá nada como a nossa casa!
– São feitios, senhor padre João… – tentou, em todo o caso, o Firmo. – A vida…
– Quais feitios, qual vida! Firmo calou-se. O amor daquele homem à terra era tão absoluto como o seu próprio amor à vastidão do mundo. Para quê discutir?
– E de festa, que tal vamos? Vê lá isso! Não me deixes ficar mal…
– Está justa a música velha de Constantim, encomendámos o fogo em Cabeda e os saiais são de Sabrosa. Pregador, o senhor padre João dirá…
Nem parecia o mesmo. Como um homem se modificava! Lá diz o ditado: Infeliz pássaro que nasce em ruim ninho. Tanto monta correr, como saltar: as asas puxam-no sempre para onde aprendeu a voar. Pusessem os olhos naquele exemplo.
Mas na véspera da Senhora da Agonia, roído não se sabe por que melancólica inquietação, Firmo, que lutara como um herói durante um ano para se aguentar ali, bateu à porta da residência.
– Dá licença, senhor padre João?
– Entra, Firmo. Alguma novidade?
– Nada de importância…
No rosto largo do abade o sangue correu mais tinto e mais alegre.
– Bem. Isso é que eu gosto de ouvir.
Sem palavras para desiludir aquela confiança, peado, o desertor começou a gaguejar:
– Pois é verdade… Afinal…
O padre, então, olhou-o com a sua penetração profissional de confessor:
– Desembucha!
E Firmo escancarou-lhe a alma:
– Não posso mais, senhor padre João. Embarco amanhã e venho dizer-lhe adeus.
Miguel Torga, Contos da Montanha.
MIGUEL TORGA
Miguel Torga, por Carlos Botelho ou Bottelho, pintor e escultor português.

 

Miguel Torga é o pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, (1907 — 1995) um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. O autor destacou-se como poeta, contista e memorialista, e escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.

Graciliano Ramos – Muros sociais e aberturas artísticas.

Sabe quando você termina de ler um livro mas continua “preso” na história, que é tão boa, tão instigante, que permanece ecoando na tua mente por muitos dias após a leitura? Então, as obras do mestre Graciliano Ramos costumam exercer esse poder sobre nós. Ano passado eu tive o meu primeiro contato com esse autor na leitura de São Bernardo, e essa foi uma história forte, intrigante, que me deixou ansiosa por aprofundamento, que me fez pensar em questões sociais, filosóficas e culturais, e eu não tive contato com nenhum texto de apoio para ajudar em meus questionamentos. É aí que entra esse livrinho aí da foto! Ele é pequeno, curtinho, e a gente acha que vai ler numa sentada, rapidinho…

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Não mesmo!

Muros Sociais e aberturas artísticas é uma coletânea de doze textos que tem o objetivo de pensar a obra de Graciliano Ramos com outras obras literárias do Brasil, Portugal e Cabo Verde, numa reflexão comparativa com estudos de sociologia, política e outras áreas do saber e das artes em geral, inclusive apontando a importância da obra do autor para as crianças. As análises trazidas no livro são curtinhas, mas profundas e muito relevantes para quem deseja um mergulho na mente do autor, com análise de personagens e ambientações, o que nos ajuda a pensar as histórias e questionar o que é ficção e o que existe de autobiográfico ou não.

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“O desnorteio e a alienação da personagem, que já não tem o controle do tempo e do espaço, ficam patentes com a confusão entre o tempo presente e o passado da memória” – sobre a angústia e solidão de Paulo Honório em São Bernardo, por Andrea Trench de Castro.

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Os autores da coletânea fazem parte de um grupo de pesquisa de estudos comparados das obras de Graciliano Ramos da USP e tem como organizador o professor e crítico literário Benjamim Abdala Jr., ou seja, é uma obra indispensável para colecionadores, estudiosos e curiosos.

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Minhas impressões: achei um livro bastante técnico que, para o leitor médio pode assustar de início, mas que agrada pelo conteúdo riquíssimo e usos comparativos com outras artes, o que ajuda na compreensão dos textos. Para estudantes de Letras é indispensável porque abre um leque de possibilidades de abordagens e estudos críticos. Não aconselho a leitura para quem não gosta de spoilers e ainda não leu os livros estudados nos ensaios. Para esses, a leitura dos textos deve ser feita após a leitura dos respectivos livros aos quais se referem, funcionando como verdadeiros textos de apoio. Para quem, como eu, não se preocupa com isso, é uma boa forma de começar a ler e se apaixonar por Graciliano Ramos.

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  • Capa comum: 336 páginas
  • Editora: Record (10 de março de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501108251
  • ISBN-13: 978-8501108258
  • Dimensões do produto: 23 x 16 x 2 cm
  • Peso do produto: 440 g
  • Minha avaliação: 5/5

Parceria: Grupo Editorial Record 

Para quem não acompanhou meu ataque de alegria na semana retrasada  lá no stories do instagram (se você ainda não me segue no @letrasextraordinarias está perdendo um monte de dica legal), aqui vai a novidade: agora o IG Letras Extraordinárias é parceiro do Grupo Editorial Record, e eu vou trazer essa parceria para o blog.

A partir de agora vamos ter mais conteúdo,  e mais indicações literárias para vocês.

Fiquem ligados que deve rolar sorteio também. 🤗

A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata.

A casa das belas adormecidas
Autor: Yasunari Kawabata
Editora: várias (ePubr)
Ano: 1961
Sinopse:
Imbuída de um erotismo inusitado, esta obra, escrita em 1961, demonstra a maturidade estilística do autor, que se utiliza sua virtuose descritiva para contar a história de Eguchi, um senhor de 67 anos que frequenta a ‘casa das belas adormecidas’, uma espécie de bordel onde moças encontram-se em sono profundo, sob efeito de narcóticos. Apesar da idade avançada, o protagonista parte em busca dos prazeres perdidos e se depara com moças virgens, que os visitantes podem tocar, mas são proibidos de corromper. Daí derivam passagens antológicas de rememorações pessoais e fantasia. Kawabata procura desvendar o enigmático universo do corpo feminino em um culto ao belo e ao inalcançável, investigando as dores da solidão a partir da sutileza de um erotismo expressivo, constantemente atravessado por passagens de fina ironia e perturbadora consciência da passagem do tempo, do vazio existencial que permeia as relações humanas.
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Sabe um livro difícil de digerir? Então.

Peguei esse livro para a categoria um livro de um autor japonês do #desafiolivrada2017 e foi uma experiência um pouco angustiante.

A história é a seguinte: um senhor de idade procura uma casa que oferece companhia de jovens virgens para dormir. Mas dormir mesmo, nada de sexo. Mas as companhias são moças bem jovens, e elas estão nuas. E desmaiadas. E quando digo desmaiadas, na verdade quero dizer desacordadas, quase mortas: drogadas. Não veem nada e não sabem de nada do que está acontecendo ao redor. É assustador!

E nesse ambiente físico, que me pareceu frio de modo a favorecer o sentimento de solidão, ele passa algumas noites, cada noite na companhia de uma mocinha nua diferente, que ele não sabe o nome, a idade, nada. É “apenas” a companhia de um corpo feminino nu e indefeso, que ele sabe apenas que respira e dorme. E ao lado delas, ele reflete sobre sua vida, sobre seu vazio existencial, seus questionamentos e medos de homem idoso, e nos conta algumas poucas histórias de sua juventude. Dessa forma, sabemos muito pouco sobre o homem, e nada sabemos sobre as meninas, apenas que dormem indefesas.

Esse livro inspirou Gabriel Garcia Marquez a escrever “Memórias das minhas putas tristes” e é um clássico da literatura mundial. Mas eu não recomendo para todo mundo porque pode servir de gatilho emocional para pessoas mais sensíveis ao tema. Foi um livro que incomodou e fez-me refletir sobre diversos assuntos como violência sexual e emocional, velhice, solidão, suicídio, homicídio, existencialismo, empatia, morte, e muito mais.

Não é uma história dinâmica, mas um livro lento, que faz-nos refletir junto com o personagem. Apesar disso, é um livro curtinho e nada cansativo, então não precisa ter medo porque não é nada entediante. Para mim foi uma experiência enriquecedora e constatei, mais uma vez, que  autores japoneses são geniais.

David Copperfield, Charles Dickens.

  • Capa dura: 1312 páginas
  • Editora: Cosac & Naify (13 de outubro de 2014)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8540507862
  • ISBN-13: 978-8540507869
  • Dimensões do produto: 17,6 x 12,8 x 7 cm
  • Peso do produto: 1 Kg

Sinopse

Um dos pilares da literatura ocidental moderna, Charles Dickens é até hoje fonte de inspiração para muitos escritores. Seu gênio foi admirado por Tolstói, Marx, Joyce, Kafka, Henry James, Nabokov, Orwell, Cortázar, entre muitos outros.
Semi-autobiográfico, David Copperfield foi publicado em forma de folhetim entre 1849 e 1850. O autor afirma, no prefácio ao livro, que, entre os inúmeros romances que publicou, este era seu “filho predileto”. A edição inclui textos críticos de Jerome H. Buckley, Sandra Guardini Vasconcelos e Virginia Woolf. Tradução de José Rubens Siqueira.

Primeiro livro do projeto #12calhamacos2017 já foi! E que “livrão”, minha gente! Nos dois sentidos! 😄

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David Copperfield é uma semi-autobiografia do Dickens publicada em 1849/50. Conta a história de um órfão que perde seu pai seis meses antes de seu nascimento e, mais tarde, sua mãe casa com um homem muito duro e amargo, que prejudicará muito a vida de David e seu relacionamento com sua mãe. David, então, aprende desde muito cedo os horrores da solidão e da maldade humana, e enfrenta inúmeras dificuldades sem deixar que nada retire de sua essência sua doçura e inocência, que é tanta que a gente sente agonia por ele ser tão bonzinho e confiar em todo mundo que se apresenta como amigo.

O livro é narrado em primeira pessoa e traz vários personagens, cada qual com seus dramas, personalidade, histórias muito bem delineadas e que receberão um desfecho final muito bem amarradinho, contribuindo para o fim harmônico da história do narrador. A narrativa conta a história de David desde seu nascimento até a vida adulta, e passeamos pela Inglaterra do Séc XIX com todos os problemas e dificuldades enfrentados por ele naquela sociedade. O amadurecimento do personagem é tão nítido e tão bem feito que podemos nos sentir verdadeiros expectadores de sua vida. Senti pena, raiva, amor, alegria, tantos sentimentos que sequer consigo expressar. É uma grande viagem e vale a pena degustar sem pressa, deixando a história crescer junto com seu narrador, vivenciando com ele todos os seus dramas pessoais e de seus amigos.

Eu já estou com saudades de todos!

Leitura mais que recomendada, obrigatória para todos os amantes de um bom clássico